Começo o meu dia em Hayle, a bater à porta da farmácia errada.
Sabia que a store 5325 foi a eleita para eu lá trabalhar hoje. Estava com 99% de certeza que era em Hayle e pensava eu que era a chemist próxima da estação de comboios.
Sigo em direcção à avenida principal e bato então à porta daquela que eu julgava ser a farmácia. Quando a menina me responde à pergunta Is this the branch 5325? com um sorridente No, o meu primeiro pensamento foi "Só me faltava mesmo era não ser em Hayle e ser noutra terra qualquer". Eis que a sua resposta conseguiu motivar-me "Are you walking right? Well it's just 20minutes walking from here to Copperhouse. I'll give them a ring to let them know you're on your way and in 10 minutes you might be there!".
Ora pois muito bem, não é preciso ser nenhum génio da matemática para reconhecer que 20minutes ou em português 20minutos é bem diferente de 10minutes ou em português 10minutos.
Mas não me pus a discutir com a simpática menina sobre o tempo necessário para alcançar a store 5325 apenas a questionei sobre o caminho mais rápido.
Vi aquela discrepância de minutos como um incentivo a caminhar bem rápido. E os que me conhecem sabem como posso ter o passo acelerado.
Até para meu espanto chego em menos de 10minutes. Claro que o prazer por não ter demorado mais do que isto foi desmanchado pela caratonha nada simpática da store manager e de uns tantos utentes que já faziam fila em frente da porta principal.
Lembrei-me logo dos tempos em que trabalhava em São João de Vêr, Sta Maria da Feira, com simpáticas figuras bem típicas lá daqueles lados, que mal terminava a consulta com o Sr. Dr. vinham fazer fila para a porta da farmácia. Quantas vezes eu ainda tinha apenas uma das portas abertas e já haviam Sras. Marias que não tendo propriamente as medidas de uma Cláudia Vieira tentavam entrar apenas por aquele espaço.
Mas british que é british faz uma cara feia e tal mas não perde as estribeiras nem a classe. Obtive o perdão dos que esperavam pela farmacêutica e empenhei-me em recuperar aqueles minutos de atraso.
Para os que não sabem, em Inglaterra não havendo um(a) farmacêutico(a) não é só a farmácia que não funciona. Todo o business que embora não se relacione com farmácia, partilha do mesmo espaço físico, deixa de poder acontecer.
É muito raro uma farmácia ter um segundo farmacêutico. Apenas tem um e às vezes sabe Deus o que companhias como Boots, Superdrug, Lloyds passam para conseguir arranjar um profissional do medicamento que trabalhe no dia em que o permanent pharmacist está de folga, ou de férias ou com swine flu. Nem as locum agencies conseguem dar resposta a tamanha solicitação.
Terminado o dia de trabalho dou uma corridita até à estação de comboios e lucky me em poucos segundos o comboio aproxima-se da plataforma.
Já dentro do comboio imagino-me a chegar a casa e a comer os meus chocolat biscuits embebidos em leite UHT quentinho. Sim, porque aqui o frio convida a estes caprichos: bebidas quentinhas e chocolate.
Este sonho teria de ser adiado para mais tarde...
É hora de ponta e todos querem chegar a casa.
Ao chegar a Truro, a confusão habitual. Não é Londres, nem semelhante. Mas para uma não muito grande cidade em Cornwall acreditem que pode ser um desafio enfrentar a multidão. Quem cá estuda ou trabalha sabe bem do que falo. É raro o comboio que não sai de Truro atrasado já que são tantas as pessoas que saiem/entram.
Faço sempre por ser das últimas pessoas a levantar do confortável banco da companhia First Great Western.. No entanto, acabo sempre por enfrentar a multidão que pretende alcançar o comboio. Mas eis que um anúncio feito pelo condutor põe fim à minha imaginação. Eu que já me imaginava a enfrentar a multidão como um jogador da equipa de rugby Pirates acabo por não marcar um try pois a palavra police acordou-me. Polícia à espera na estação de Truro para quê? Não tive tempo para divagar sobre uma possibilidade de resposta pois os encontrões, o excuse me tinha começado.
Para sair da estação de Truro há que atravessar a zona das bilheteiras, onde hoje estavam à entrada 2 senhores a tentarem mostrar a sua cara de paciência enquanto verificavam se todos tinham viajado com bilhete. Os teenagers mais desprevenidos foram claro apanhados. Os adultos que entraram para o comboio sem bilhete pois estavam numa rush e não tiveram tempo para o comprar também. É muito frequente acontecer estas esperas, principalmente em estações de média dimensão (à escala inglesa; grande dimensão à escala portuguesa) como Truro. Esta foi a primeira fase de selecção.
Pós esta caça aos não-bilhetes estavam oficiais de segurança pública com cães a farejar tudo o que era saco. Antes de sair da railstation vimos o ar nada amistoso daqueles cães que me habituei cá a ver em dias de jogos de futebol entre grandes equipas inglesas. Mas inglês que é inglês não teme aqueles dentes nem a armadura da pessoa que segura a besta. Então se for num dia de jogo de futebol são como super-heróis: nada temem e lutam contra as forças do mal personificadas nas pessoas que afinal só estão a fazer o seu trabalho tentando acalmar ânimos. São super-heróis e acabam mesmo em histórias aos quadradinhos. Ou melhor, aos cubos, pois as celas são aquelas salas em que as portas são grades.
Mas voltando aos polícias. Quem cá vive ou já passou cá uma temporada sabe como este povo é no que toca a segurança pública.
Ele é This is a Neighbourhood watched area, câmaras de CCTV por todo quanto é lado, agentes à civil que me fazem sentir que afinal sou eu a cidadã infiltrada, forças de intervenção com armas que só se veêm nos filmes, em aeroportos (quem já esteve em Bristol sabe a que me refiro), etc etc etc.
Notei que com a chegada do época natalícia as ruas estão ainda mais vigiadas. As ruas e os estabelecimentos comerciais. Portugal nem um quinto de oficiais tem nas ruas. Mas eu até entendo. São deslocados para as operações em auto-estradas, vias rápidas, com o objectivo de tornar a condução segura (?).
Como cá em Inglaterra, as câmaras fotográficas fazem muito bem o seu trabalho e o Royal Mail é eficiente na entrega das multas, os agentes de autoridade estão concentrados na segurança pública, aqui entenda-se também por combate ao terrorismo.
Jamais senti este sentimento anti-terrorismo enquanto estive em Portugal. Atentados como o de Londres, bombas artesanais como as que rebentaram em Bristol, entre outros acontecimentos são headlines em conversas em pubs. Os produtos disponíveis em farmácias inglesas para venda não são os mesmo que em Portugal devido também a esta luta contra o terrorismo. Fizeram um dói-dói e querem desinfectar? O que arde cura dizem os tugas. Mas cá, álcool só mesmo nas bebidas. Água oxigenada? Atrevam-se a dizer a palavra hydrogen peroxide e não se queixem que notaram que as pessoas começaram a olhar para vocês de forma diferente. Acreditem, estavam mesmo.
Take care of your belongings até nos painéis electrónicos dos metros de Lisboa e do Porto aparece. Agora se suspeita de uma mala, denuncie nos trataremos dela pois pode ser material perigoso, corrijam-me se estiver enganada mas acho que em 6 meses isto ainda não começou a acontecer nesse jardim.
Não estava nada à espera duma operação destas. É daquelas coisas que eu sei que acontece lá naquelas cidades como Manchester, Leeds... que aparece nas notícias, mas hoje aconteceu em Truro também.
Nenhum dos oficiais foi agressivo, nem nenhum dos animais mostrou os dentes. Mas uma mãe inglesa nada contente com o aparato mostrou a sua indignação à saída junto de um dos oficiais.
As suas palavras deixaram-me a pensar e lanço aqui uma dúvida minha: não estaremos nós a combater o terrorismo, usando o terror? Não será afinal o anti-terrorismo também uma forma de terror?
Reconheço que aqueles senhores estavam a fazer o seu trabalho mas...em vez de demorar 3 a 4 minutos, desde que saio do comboio até sair da estação, demorei 10 vezes mais.
Opah, eu só queria chegar a casa e comer umas bolachas de chocolate molhadas em leite quentinho. Sim, porque uma pessoa com fome pode ser agressiva mas não tem energia sequer para levantar o dedo e começar a refilar, numa segunda língua. Por isso, se algum polícia inglês ler isto:
Sir police agent, a hungry person does no harm pah! Let her/him go.
Olá Sara!
ReplyDeleteO aparato da operação policial marcou-te, nota-se.
Arranjaste uma maneira divertida de contar o episódio. Gostei!
Nunca fui apresentada a polícias “armados” de cães açaimados e isso faz-me gostar mais deste nosso pequeno jardim.
ReplyDeleteQuanto à pergunta que fazes não sei se será uma forma de terror mas de intimidação é-o claramente.
Mas nada que uns deliciosos biscoitos de chocolate não ajudem a perdoar… Aquele abraço =)